sexta-feira, 21 de abril de 2017

Empate



Já fez um mês que saí do hospital e voltarei hoje para uma nova e dizem breve intervenção cirúrgica, está previsto sair hoje ainda.

O meu medo reside na palavra previsão. Da última vez estava prevista uma semana de internamento e uma operação mas fiquei um mês inteiro e realizei duas. Como tal, tenho medo daquele bloco operatório e do que lá se poderá passar. O medo, quando nos apanha, tende a alastrar-se como uma coisa irracional, invade tudo e não deixa espaço para pensar. Estou a lutar contra ele com todas as minhas forças mas as vitórias neste campo costumam ser apenas parciais. Contento-me com um empate com o medo.

~CC~

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ainda


Hesito onde arrumar as calças de (muito) magra que a minha irmã mais velha retirou do seu próprio guarda roupa para me dar, não lhes dou entrada directa no armário, arranjo-lhes um canto próprio. Hesito sobre o que fazer à roupa que não me serve, consegui tirar meia dúzia de calças que, creio, não me servirão mais. É como se ainda estivesse à espera do meu eu de volta, como se esta estivesse a prazo e não para ficar. 

Também hesito sobre o cabelo cinzento, já tive quase a correr a pintá-lo com tinta natural, desisti por pensar que ainda vou ter que o rapar novamente. Não é feio o cinzento e há inúmeras mulheres a recusar as tintas, é quase um movimento. Mas não nos enganemos, deixa-nos a idade bem presente, a clara indicação que o caminho é só um e é rápido. Muita gente passa por mim e não me conhece, não lhes levo a mal, eu própria ainda não me conheço o suficiente.

~CC~

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Duas mulheres



Duas mulheres que já não eram jovens. Vinham pela rua de mão dada, passeio perto do mar. Felizes com a sua audácia, fortes por enfrentarem o preconceito. Sorriram para mim. Também lhes sorri, não tão abertamente quanto gostaria de o ter feito. Na verdade vinha ligeiramente distraída, encantada pelo sol.

Não estou certa que o mundo esteja preparado para as deixar dar as mãos quando quiserem, onde e como quiserem. Mas para mim não faz diferença alguma, pelo contrário, o gosto por ver as pessoas a viverem a vida, a sua vida, faz-me bem.

~CC~

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Sul


A praia está vedada para mim, só um passeio ao fim da tarde. Sabemos que sol e cancro não se dão.

Por isso escolhi o campo. E não me arrependi. Trago comigo um intenso cheiro a flores de laranjeira. E como gosto desse cheiro. Tem também uma memória associada, a de Sevilha há uns anos atrás, os bairros mais antigos tinham este cheiro, nunca o tinha sentido tanto numa cidade.

São as pequenas coisas boas que procuro.

~CC~

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mais Sul



Desci mais para sul e colhi com os olhos e pelo Alentejo um monte de estevas, das minhas flores de campo mais adoradas, parecem feitas de papel muito frágil, pontuam a paisagem de branco e amarelo deixando-a clara, límpida. Tinha muitas saudades desta viagem em tempo de Primavera.

~CC~