sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Filha de deuses certamente...



Nasceu no mesmo dia que eu, não sei onde, mas imagino que não terá sido em terra de coqueiros e mangais. Tem apenas um ano mais. O coração entrega-o aos pardais que lhe pedem pão no beiral, também aos filhos, a qualquer pessoa que lhe pareça bondosa, às vezes parece que ao mundo inteiro. Abre a porta a vizinhas faladoras que andam meio perdidas na vida e conversa com as pessoas do bairro onde faz compras. Mas também é reservada, gosta do silêncio, de um copo de vinho com um bocadinho de queijo. O outono é a sua estação preferida, logo aquela que começa quando nasceu. Um dia bom começa com uma caminhada junto ao mar, com a brisa, com o olhar a apanhar o desenho das conchas. Cozinha por gosto, também por obrigação, gostava muito de provar as suas bolachinhas de manteiga, as de limão e outras mais cujo aroma chega aqui, a tantos quilómetros de distância do lugar onde ela mora. Convive com deuses e bruxas, maus olhados mas quase sempre olhados bons, o seu misticismo é o seu, é só dela. Quando eu fiquei no hospital muito para além do que estava previsto, arranjou maneira de saber de mim e só me conhecia daqui, do caldeirão virtual. Dizem que a blogosfera é isto e aquilo, eu não sei nem quero fazer teorias e pouco me interessa classificar a qualidade dos post(s) de alguém, sei apenas que enquanto pessoas como ela existirem, eu andarei por aqui, pois isso mostra-me a humanidade no seu melhor. Parabéns minha querida.

~CC~

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Escola



Ia a menina bem segura pela mão da mãe, atravessando ruas, passeios e parques. Depois chegaria à porta da escola e teria que a largar, que a deixar sem lágrimas. Como lhe custou. Nunca fui uma menina como aquela, ia sozinha para a escola, eram tempos outros.

Vejo chegar os meus novos alunos que são já adultos, mas há neles uma estranheza, um desconforto, uma leve semelhança com a menina que vi atravessar a cidade pela mão da mãe. Não os acho felizes, desconheço os caminhos pelos quais chegaram até aqui. Felizmente os mais velhos, sobretudo os que estão de saída, mostram-me mais luz no olhar, não obstante saber como a vida lhes será agora difícil. Para me confortar, para me motivar para iniciar o ano, penso que uma pequena parte daqueles sorrisos, afinal nos pertence.

~CC~

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

E é já noite



Vinte horas e 12 minutos e é noite. O Outono é a estação mais difícil de amar, rouba-nos, ao entrar, e dia a dia, cinco minutos de sol.

~CC~

sábado, 16 de setembro de 2017

Cidade sitiada


Uma das sobrinhas foi viver para Londres há uma semana. Como não lhe admirar a coragem por viver numa cidade sitiada. A mãe disse-lhe para não andar de metro, ao que ela respondeu que era impossível viver em Londres sem o fazer, tudo na cidade é muito longe e só o metro cruza a cidade sem tanta demora. Compreendo mas não sei se seria capaz. O meu acto heróico de luta contra o medo
foi enviar a minha candidatura Erasmus para Barcelona, mesmo assim não sabendo se chegarei a ter tal coragem. Este não é o mundo em que fui jovem, lamento tanto, mais por eles, que tinham por garantido que o mundo seria tão vasto, muito para além do horizonte que todos os dias avistam.

~CC~

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um dia mais



Paul Auster diz que já viveu mais do que o seu pai, tem 66 anos. E que acorda a dizer: um dia mais, agradecendo-o. Digo o mesmo aos 52, quase 53.

~CC~