quinta-feira, 20 de julho de 2017

Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro



Não sei se ganhei medo em estar sozinha, mas acho que não, há por vezes só alguma sensação de vazio, outras, uma ligeira ansiedade, traduzida por uma inédita alergia ao silêncio, qualquer coisa que uma televisão ou uma rádio não anulam. Trata-se de uma espécie de buraco negro no qual fico suspensa com uma tristeza sem sentido, quanto mais o buraco me absorve, mais o pânico acontece. Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro.

E o buraco negro apanha-me mais quando estou sozinha, como se estivesse ali, tal qual bicho papão à espera de me agarrar. Os outros não são sempre protectores nem o são todos, já fui apanhada mesmo na presença de outro alguém.

Mas são protectores sobretudo aqueles que têm colo para dar, que sabem que também os adultos precisam de um lugar onde esconder o rosto, de quem grite aos monstros, esvazie os buracos negros, amanse as feras, em síntese, de quem sabe o que é ser terno, dar ternura. 

~CC~

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Combinações


Não é raro, contudo nem sempre acontece esta combinação meteorológica, o tempo exterior a combinar com o tempo interior, numa conjugação de nuvens. A culpa talvez resida nesta pequena dor que antes nada seria e agora é assustadora, ou no cansaço que se tem vindo a acumular por força da energia interior, essa sim, já não combinar com o que o corpo deixa. 

~CC~

sábado, 15 de julho de 2017

Educação emocional



A criança, cerca de cinco anos, vinha no comboio com os avós e o pai. Não foi clara para mim a situação conjugal dos pais, pareciam estar separados e a mãe já tinha outra criança, uma vez que o pai disse-lhe: pergunta à mãe pela tua irmã. Ele perguntou e a mãe respondeu, pelo que a criança informou o pai: ela esta a mamar. E o pai num tom de voz claramente educativo e assertivo disse-lhe: não é mamar que se diz, é beber o leite. E a criança: isso pai, beber o leite.

Assim se preparam as pessoas para se distanciarem do seu lado bicho, mesmo que esse seja essencial à vida humana. Pela vida fora saberão que não é bonito dizer coisas que são afinal lindas.

~CC~

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Menos



Deixei de gostar de praia, dizia o senhor ao amigo, ambos na casa dos sessenta. São várias as pessoas que dizem coisas como esta. É um cansaço que avança pelo corpo e toma de assalto a cabeça. A praia é das primeiras coisas a cortar, o mar, como diriam os algarvios, causa muito quebranto.

Bem pelo contrário, a mãe de 88, quase 89, ligou hoje do cais de Gaia, maravilhada com a vista, uma voz tão de menina que quase lhe podia ver o brilho nos olhos. Mora no Algarve e deslocou-se de comboio com um dos seus filhos, o que mais longe mora (no Brasil).

Achei sempre que seria como ela. Agora não tenho tanta certeza. Mas estou longe da fase de riscar coisas e ainda me encontro a acumular vontades e desejos do que nunca fiz ou do que gostaria de repetir. Contudo, já me encontro na fase de dizer: disto gosto menos ou já gostei mais. De praia no Verão, por exemplo.

~CC~


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Pompa, circunstância e muito vazio.



Até me entusiasmei ao início, há quanto tempo não sou formanda, não volto aos bancos da escola, vamos lá aprender para que não me esgote a mim própria no que já sei. Se há algo de maravilhoso é nos apaixonarmos, seja por uma cidade nova, um livro, uma teoria, uma pessoa....

Mas conclui...

O mundo está tão cheio de copy-paste. De pompa, circunstância e muito vazio. Nada é afinal inteiramente novo e isso não tem nada de mal. O mal é o convencimento de que estão a criar de novo, a ser originais, quando não fizeram mais que reler os clássicos, mastigá-los e dar-lhes outra forma. E claro, um marketing adequado aos novos tempos e um selo da união europeia. E esperteza, muita esperteza, resumida na frase: não digam que isto é um projecto, já ninguém quer ouvir falar de projectos, digam antes que é "um outro olhar". 

Um outro olhar não, um embrulho novo. Até há facetas do embrulho que podem ser engraçadas, mas não se digam mestres, façam antes vénias aos que o são verdadeiramente, digam que beberam neles até ao tutano.

E ainda falta tanto para acabar a semana. A tentar ainda assim aproveitar alguma coisa e testar a minha paciência. 

~CC~