quinta-feira, 20 de julho de 2017

Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro



Não sei se ganhei medo em estar sozinha, mas acho que não, há por vezes só alguma sensação de vazio, outras, uma ligeira ansiedade, traduzida por uma inédita alergia ao silêncio, qualquer coisa que uma televisão ou uma rádio não anulam. Trata-se de uma espécie de buraco negro no qual fico suspensa com uma tristeza sem sentido, quanto mais o buraco me absorve, mais o pânico acontece. Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro.

E o buraco negro apanha-me mais quando estou sozinha, como se estivesse ali, tal qual bicho papão à espera de me agarrar. Os outros não são sempre protectores nem o são todos, já fui apanhada mesmo na presença de outro alguém.

Mas são protectores sobretudo aqueles que têm colo para dar, que sabem que também os adultos precisam de um lugar onde esconder o rosto, de quem grite aos monstros, esvazie os buracos negros, amanse as feras, em síntese, de quem sabe o que é ser terno, dar ternura. 

~CC~

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Combinações


Não é raro, contudo nem sempre acontece esta combinação meteorológica, o tempo exterior a combinar com o tempo interior, numa conjugação de nuvens. A culpa talvez resida nesta pequena dor que antes nada seria e agora é assustadora, ou no cansaço que se tem vindo a acumular por força da energia interior, essa sim, já não combinar com o que o corpo deixa. 

~CC~

sábado, 15 de julho de 2017

Educação emocional



A criança, cerca de cinco anos, vinha no comboio com os avós e o pai. Não foi clara para mim a situação conjugal dos pais, pareciam estar separados e a mãe já tinha outra criança, uma vez que o pai disse-lhe: pergunta à mãe pela tua irmã. Ele perguntou e a mãe respondeu, pelo que a criança informou o pai: ela esta a mamar. E o pai num tom de voz claramente educativo e assertivo disse-lhe: não é mamar que se diz, é beber o leite. E a criança: isso pai, beber o leite.

Assim se preparam as pessoas para se distanciarem do seu lado bicho, mesmo que esse seja essencial à vida humana. Pela vida fora saberão que não é bonito dizer coisas que são afinal lindas.

~CC~

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Menos



Deixei de gostar de praia, dizia o senhor ao amigo, ambos na casa dos sessenta. São várias as pessoas que dizem coisas como esta. É um cansaço que avança pelo corpo e toma de assalto a cabeça. A praia é das primeiras coisas a cortar, o mar, como diriam os algarvios, causa muito quebranto.

Bem pelo contrário, a mãe de 88, quase 89, ligou hoje do cais de Gaia, maravilhada com a vista, uma voz tão de menina que quase lhe podia ver o brilho nos olhos. Mora no Algarve e deslocou-se de comboio com um dos seus filhos, o que mais longe mora (no Brasil).

Achei sempre que seria como ela. Agora não tenho tanta certeza. Mas estou longe da fase de riscar coisas e ainda me encontro a acumular vontades e desejos do que nunca fiz ou do que gostaria de repetir. Contudo, já me encontro na fase de dizer: disto gosto menos ou já gostei mais. De praia no Verão, por exemplo.

~CC~


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Pompa, circunstância e muito vazio.



Até me entusiasmei ao início, há quanto tempo não sou formanda, não volto aos bancos da escola, vamos lá aprender para que não me esgote a mim própria no que já sei. Se há algo de maravilhoso é nos apaixonarmos, seja por uma cidade nova, um livro, uma teoria, uma pessoa....

Mas conclui...

O mundo está tão cheio de copy-paste. De pompa, circunstância e muito vazio. Nada é afinal inteiramente novo e isso não tem nada de mal. O mal é o convencimento de que estão a criar de novo, a ser originais, quando não fizeram mais que reler os clássicos, mastigá-los e dar-lhes outra forma. E claro, um marketing adequado aos novos tempos e um selo da união europeia. E esperteza, muita esperteza, resumida na frase: não digam que isto é um projecto, já ninguém quer ouvir falar de projectos, digam antes que é "um outro olhar". 

Um outro olhar não, um embrulho novo. Até há facetas do embrulho que podem ser engraçadas, mas não se digam mestres, façam antes vénias aos que o são verdadeiramente, digam que beberam neles até ao tutano.

E ainda falta tanto para acabar a semana. A tentar ainda assim aproveitar alguma coisa e testar a minha paciência. 

~CC~

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Pode esperar



Fixo-me na frase que está inscrita como título no meu cinema mais querido: Paris pode esperar.

Já li sobre o filme, talvez o veja, mas isso não é o que importa. O que importa é a essência do título. Um bom programa de vida sem dúvida, não só Paris pode esperar, afinal tudo pode. Para quê andar a correr?! Se andarmos mais devagar, talvez encontremos outras coisas. E se não puderem esperar por nós, talvez não valha a pena ir. Isto não é nenhuma desculpa para aqueles que andam sempre atrasados mas antes um paradigma para aplicarmos na antecipação de qualquer correria.


~CC~

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Esta pele que não muda



Queria mudar tanta coisa e mudei tão pouco.

Quase sem dar conta já estou praticamente submersa em trabalho, até com dificuldade em cumprir a regra de não trabalhar à noite. Dizem-me tantas vezes que estavam à minha espera para isto ou para aquilo ou que a) ou b) sem mim não funcionou que me sinto quase mal por ter estado doente, ausente. Digo-lhes sempre que pode voltar a acontecer. Curiosamente essa falta que grande parte diz sentir (outros, bem pelo contrário) não alimenta o meu ego, até acho que fiz tudo mal, centralizei provavelmente o que não devia ter centralizado, fiz demasiada gente dependente, não formei suficientemente as pessoas para me poderem substituir. Quero que agora seja diferente. 

Contudo, não é fácil. Hoje entrámos na faculdade de letras, na qual uma colega fez a sua formação há mais de trinta anos e ela exclamou: isto mudou tão pouco, quase igual. As instituições são assim, sem dúvida. Mas as pessoas também. Eu não me tinha nessa conta mas apesar de querer muito, parece que mudar uma coisa simples, me requer um esforço equivalente ao de mudar uma montanha. 

Já ando a percorrer o país de lés a lés como antes, com a consciência plena do cansaço que tal me causa, e sem conseguir deixar de o fazer. Até já pensei em fazer coisas modernaças que nos estimulam a mudança de rumo: coaching, por exemplo. Dantes na psicologia tal coisa chamava-se simplesmente aconselhamento ou com um bocadinho mais de gravidade:terapia.

Preservem-se as noites, hoje vou tentar ir ao cinema.

~CC~






sábado, 1 de julho de 2017

Vivi para a ver


Testando os limites, aceitando-os.

Demasiada gente, muito tempo em pé, vento norte, impossível marcar a presença anual no Festival MED em Loulé. Lura e Mayra teriam valido a pena, gosto do calor da música cabo verdiana. Hei-de voltar a ouvi-las, hei-de voltar ao MED.

Medindo os passos com o pedómetro, sempre aquém dos 6.000 recomendados, mas já andei lá perto na passadeira junto ao mar. O corpo vai renascendo, lembra-me uma planta da minha varanda que parece morrer todos os anos mas depois se ergue ténue quando a primavera chega.

Um almoço de sardinhas, salada montanheira e melão. Estás à minha frente e falamos, ainda gosto muito de ti. E sou capaz de comer sardinhas, ainda é possível. Tão bom

A luz do verão. Vivi para a ver.

~CC~

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Vida dupla



Estou permanentemente a hesitar.

A proximidade da morte gerou em mim duas tendências contraditórias.

A primeira é desligar-me de tudo, resvalar para um cantinho em que ninguém me possa ferir, reduzindo cada coisa a uma insignificância, nada tem tanto valor assim que nos possa incomodar até ao nosso âmago. Suspiro para o lado, foco-me na beleza que as flores têm quando começa a primavera, na maravilha que é o primeiro banho de mar. 

A segunda é incomodar-me com tudo, vendo com clareza a paz podre em que se vive em inúmeros ângulos da vida, sobretudo o profissional. Como acontece com os mais os velhos, apetece-me perder os filtros, dizer umas verdades, partir a loiça. Mas ao contrário deles não tenho a certeza de que não me possa ferir com os cacos, acho que ao fazê-lo, sofrerei por certo.

E tenho feito um pouco das duas coisas, num movimento errático em busca de quem agora quero ser. Às vezes durmo muito mal a pensar nas verdades que tenho que dizer e a quem tenho que as dizer, como se fosse uma oportunidade única para o fazer antes que a doença possa voltar.  Algumas das injustiças e modos de agir das pessoas tocam-me directamente mas outras nem por isso, nem é por mim, é por um mundo mais digno. Outras vezes deixo-me dormir a pensar que estes pequenos monstros irão por certo sempre existir e que, por certo, enquanto pequeno Golias perderei todas as batalhas, ao contrário da história. Assim o melhor é beber o quanto posso da beleza do mundo - e bebo e adormeço e ando por aí feliz com as pequenas coisas. Por exemplo, que as cerejas existam e eu as possa comer e ficar com a boca doidamente vermelha delas.

Desde que voltei a trabalhar, a luta entre estas duas coisas é constante, um dia acordo uma e no dia seguinte acordo outra. Ao meu lado há quem diga para ser a lutadora ou para ser a desistente, justificando-o, ou quem nada diga, não sendo capaz de opinar. A maior parte das pessoas vive a vida sem pensar em que é ou quem quer ser, eu é que sempre fui insistente nas perguntas feitas a mim mesmo.

Desistência nem é bem o termo certo, é aquele deslizar para o nada que alguns chamam modo Zen. Para o fazer bem não devia sentir zanga mas eu sinto-a e afogo-a. Lutadora é mais o colocar-me na pega dos touros como se não houvesse amanhã. É um sentimento bom quando estamos lá, a adrenalina que a coragem dá, depois as consequências chegam com alguma dor.

As vidas duplas podem ser afinal só um modo interior de viver e ser. É agora assim.

~CC~






domingo, 25 de junho de 2017

A quinta vida



Vou no meu quinto (re)nascimento. Mia Couto inventaria uma palavra melhor para o regresso do abismo.

Salvei-me em criança de ser para sempre roubada à minha família, provavelmente morta, é uma história que pensamos só acontecer aos outros ou nos filmes. Só ter escapado é o aspecto mais intrigante de todos, levada e devolvida no mesmo dia. Ainda faz parte dos meus pesadelos, não conseguirei libertar-me completamente mas aos poucos fui deixando a pele. 

Tive dois acidentes graves de carro, um capotamento na autoestrada e um choque frontal com um animal de grande porte. Do primeiro a marca foi ligeira, do segundo um pouco menos, fico a suar quando vejo animais perto das estradas. Fisicamente intacta, ainda que do segundo possa decorrer a vértebra que galgou para cima de uma outra e me provoca a dor na perna direita.

Há uns anos, em missão de trabalho em Angola, salvei-me de uma salmonela feroz. Estive internada e a desintegrar-me, levei algum tempo a recuperar o equilíbrio, quase deixei de saber andar.

Mas só na quinta vida, esta que renasce depois de um tumor (ai a palavra "depois"), tenho que dizer quem sou. Toco no ombro de alguém ou digo olá sem que ele seja devolvido e é preciso dizer: sou a ~CC~, sei que estou muito diferente....abrem-se olhos e bocas de espanto, muitas vezes surge um sorriso, um pedido de desculpas, às vezes um abraço mais apertado. Sou eu, ainda sou eu.

~CC~






sexta-feira, 23 de junho de 2017

Paradoxo



Cada vez mais e mais programas de culinária de todas as formas e feitios, os livros também já enchem uma secção inteira em todas as livrarias e as estrelas michelin (ou deverei dizer eles) ascendem à categoria de estrelas mediáticas, brilhos que antes só pertenciam a actores e modelos. O blogue mais visto de todos creio ser um do mesmo teor (que antes rejeitava a publicidade mas agora se rendeu).

No entanto, nunca vi filas maiores à porta da casa de frangos e comida já pronta mais conhecida da minha cidade, uma loja modesta e pouco gourmet, antes bem tradicional, ninguém tira fotos com a embalagem na mão e coloca no facebook. 

O que fica entre o entre o que somos e o que queremos ser?

~CC~

terça-feira, 20 de junho de 2017

Convosco, nada mais



Góis, meu amor. O rio ceira, os açudes, o cerejal.

Há tantos anos, cerca de 30, sofri contigo o que agora sofres. Essa sensação absolutamente arrepiante do cerco do fogo, não há nada igual.

Antes de ti, outros pinhais, outras aldeias, animais perdidos, famílias sem norte, sem amanhã.

Resiste Góis, meu amor.

Convosco o meu coração dorido, nada mais.

~CC~

sexta-feira, 16 de junho de 2017

É fácil fazê-los felizes


Os dias de praia da infância, lembram-se?

Os meus, na infância, não foram muitos mas foram muito felizes, entre a Corimba e a Ilha do Mussulo, na cidade de Luanda que era para mim a mais bela do mundo. Dizer-vos da água límpida como um espelho, da sombra dos coqueiros, da inocência maior e mais completa.

Na adolescência, já em Portugal, torrei ao sol sem protector, hora proibida, descanso para duas horas de digestão ou o que quer que fosse. Roendo uma maçã quando calhava, uma sandes mista, água que se trazia de casa. Livre como um passarinho, mais próxima de uma miúda de rua, do que outra coisa qualquer. Quase sempre (mal ou bem) vigiada por uma irmã mais velha, tão ou mais livre que eu.

Hoje na praia uma criança dos seus cinco anos foi obrigada a tomar um banho que não queria. Primeiro a tentativa do pai que esbarrou nos berros bem altos do miúdo, depois a mãe, gloriosa, quiçá mais poderosa que o marido, levou-o até à agua enquanto ele esbracejava e chorava e mergulhou-o. Depois, ainda choroso, foi obrigado a comer uma sandes e umas batatas fritas de pacote. Uma educação esmerada, também em termos alimentares. Por todo o lado muitos e muitos brinquedos de plástico, nos quais não pegou uma única vez. Como se recordará esta criança dos seus dias de praia na infância? 

Eu também resisti a entrar na água, estava fria, fi-lo depois, só quando me apeteceu. Muitas dias não consigo entrar, ninguém me obriga, os banhos de mar devem ser qualquer coisa da vontade de cada um. Eu tenho medo das ondas, cada vez mais.

Fazer as crianças felizes parece-me tão fácil, fazê-las infelizes parece-me tão difícil, como o conseguem num dia maravilhoso de (quase) Verão.?

~CC~



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma aldeia



Cada vez que estou uns dias numa aldeia, fico com a certeza que precisava de uma para morar. Precisava do silêncio e das noites cheias de estrelas, dos passeios matinais ou de fim de tarde, de me demorar a olhar as árvores, de saber de cor as rotinas dos vizinhos como eles ficariam a saber a minha. De ter a horta e as árvores de fruto, no limite um cão, depois de lhes perder o medo, mas nunca temos medo dos nossos próprios cães. Sim, uma aldeia que não fosse muito longe do mar, que não fosse muito longe de uma cidade onde pudesse ir ao café, ao cinema e a concertos, afinal são esses os fios que me ligam às cidades.

E já não é romantismo, sei também dos contra. Saberem-nos a vida de cor, separar os que são de fora dos que são de dentro e ser de dentro é ter nascido lá, ou pelos menos os pais terem nascido lá. É por vezes nos sentirmos como numa ilha, com algum sufoco. Mas respiro menos nas cidades cheias de prédios e cheiro a gasóleo, nestes muros que me parecem cada vez mais altos a tapar horizontes, na estreiteza de vistas, nos vizinhos estranhos.

Quero uma aldeia para me mudar a vida e desespero por ela não acontecer, por não a vislumbrar no meu horizonte.

~CC~

sexta-feira, 9 de junho de 2017

No reino da cidadania



Hesitei em tirar a senha prioritária e acabei por não o fazer, mesmo sabendo que iria esperar mais. E fiz bem, atendendo a que a loja do cidadão é um observatório humano, não devemos ter pressa.

Se pudesse tinha gravado em vídeo aquele casal cigano, mesmo considerando que como grávida, ela tinha tirado a senha prioritária depois de mim e sido atendida à minha frente, mea culpa. Ele deu-lhe a cadeira para ela se sentar, fez-lhe festas e abraçou-a enquanto era atendida e deixou-a falar sem interromper, só falava quando ela se virava para ele e o questionava. Demoraram muito tempo e nunca perderam a calma, a simpatia, a harmonia. Cidadãos de primeira!

Já foi mais difícil encarar a situação do homem negro que não falava português e que pura e simplesmente não percebia o que a funcionária lhe estava a explicar, ela dizia que as senhas para o pedido específico que ele tinha que fazer já tinham esgotado, que teria que voltar outro dia, ele continuava a mostrar-lhe os documentos, tentando explicar-lhe com gestos o que queria, de alguma forma com desespero, embora calmo. Demorou muito tempo esta cena confrangedora.  

Quando chegou a minha vez, a funcionária perguntou-me se já tinha preenchido o impresso, ora eu tinha estado ali uma hora mas desconhecia que era necessário ter previamente um impresso, nenhuma informação sobre isso estava disponível. Temi pelo "volte amanhã", mas ela acedeu a esperar. O que veio a seguir teve sorte pior, enganara-se na senha e tinha que voltar a tirar outra senha, tendo sido encorajado da seguinte forma " Isso é no IMT, tem que tirar outra senha, e prepare-se, são cerca de quatro horas de espera". 

Não sei bem de que cidadão são estas lojas nem porque se chamam lojas, sempre quis acreditar que eram um avanço face aos serviços tradicionais, mas hoje tenho algumas dúvidas.

~CC~




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Outra vez



Outra vez a aula de yoga centrada praticamente só no relaxamento.

Outra vez a viagem à infância, à felicidade do brincar. Consegui lembrar-me das bolas de sabão feitas em cana de mamão, das mangas sumarentas apanhadas no quintal, das comidas exóticas que as bonecas comiam, do tio da TAP que trazia magníficos chocolates...o problema é que também me lembrei dos carreiros de formigas desviados do seu caminho, dos objectos colocados no meio da rua e puxados pela linha de pesca assim que as pessoas os iam apanhar, dos duelos que o meu irmão fazia com o galo...pensamentos pouco zen, pouco adaptados à aula, ao lado. Não sei o que fazer comigo...

~CC~

terça-feira, 6 de junho de 2017

Um coração a correr à solta



Quase tudo igual, só eu estou diferente. Por fora comentam muito, é a magreza a que chamam elegância, a cor do cabelo que até perguntam se era igual àquela com que nasci. 

Por dentro não sabem, não se vê.

Nunca fui quieta nem calada, mas agora há uma revolução interior. Cansei-me de usar filtros. Apetece gritar e gritamos mesmo. Perdi o medo de me indignar em voz alta. Todos me dizem para não me irritar, que me fará mal. Descubro, contudo, que não é a irritação que me faz pior, é abafá-la. 

Devolvem-nos a vida e é isto, um coração a correr à solta.

~CC~


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um selo?!



A Ana deu-me um selo, ou melhor, um selinho, estes selinhos costumam empreender a sua viagem a partir de um qualquer sítio de origem. A Ana é uma irmã gémea que descobri aqui, tem quase tudo o que eu tenho, desde a idade ao dia de nascimento, mas não matou a sua parte espiritual como eu matei depois de militar, muito nova, numa organização séria da coisa. Por isso quando a leio é como essa parte de mim cheia de deuses e teias místicas com o universo, nascesses algures naquele lugar em que a deixei. E há também essa coisa de ser um ser humano magnífico. Nunca fui dada a correntes, só mesmo a Ana para me fazer participar.

Se eu quisesse ser alguém nos blogues escolhia alguém nas antípodas de nós mas ainda assim também com alguma coisa de nós. Escolho-a pelo absoluto desassombro da escrita, pela coragem, por se estar nas tintas para os blogues e, em geral, para o que pensam dela. Escolhia esta Ana, que nem deve saber que existo, que existimos.

Por uma razão completamente diferente, designadamente por  ter sido a única pessoa dos blogues que conheci pessoalmente, pela persistência dos nossos contactos ao longo dos anos, pela paixão que nutre pela escrita, poesia e poetas, nomeadamente pelo José Gomes Ferreira que quase só ela costuma colocar por aqui, escolho a Deep do Letras são papéis. Ela, sim, sei que poderá dar continuidade a este desafio.

Nos cinco que faltam estão todos os laços, todos os outros que frequento, comento, gosto, que foram e vão entrando pela vidinha dentro, muitos já nomeados por outros. Não sou capaz de mais escolhas, fazer duas já foi muito difícil.

Perdoem-me que faça uma parte da coisa não fazendo outra, eu sou mesmo assim, quase só faço o que me apetece, sobretudo aqui.

~CC~


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Andorinhas



Voltam, elas voltam ao mesmo local onde colocaram o seu ninho. Insistem, mesmo quando lhes tentam desfazer os planos. Aqui fizeram-no num sítio altamente improvável, mesmo por cima da porta da entrada na cozinha, logo a porta que se abre mais. Pudemos assistir a tudo, ao depósito dos pequenos ovos, às cinco crias que abriam os bicos mal ouviam um barulho, num pedido estridente por comida, ao modo como cresciam e mal cabiam no ninho, ao modo como a mais frágil foi atirada para fora e morreu aqui no chão, mesmo ao pé de nós. Agora os pequenos já voam o dia todo e voltam para dormir à noite, enfiando as cabeças para dentro do ninho, já não cabem lá dentro. Os pais ainda vigiam, dormindo por perto, no telheiro. Como é que esta vida se passou a desenrolar em locais urbanos, na proximidade dos humanos, é coisa que me espanta mas me maravilha.

~CC~


sábado, 27 de maio de 2017

É o que verdadeiramente importa


É uma nota tão pouco usual que parei nela...na semana em revista, assinada por Pedro Cordeiro no Expresso, entre políticos, vedetas do futebol ou do cinema, aparece o seguinte:

Jacarandás
"Este foi o seu mês. Num ritual que compensa o seu carácter efémero com a promessa de se repetir ano após ano, encheram os céus de roxo e animaram o quotidiano de quem sabe olhar para eles"

Fico a imaginar um jornal assim, todo feito de poesia, iluminador e iluminado.

~CC~

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tal qual


As palavras que eu gostava de dizer...e se possível a dançar assim.



É Malu Magalhães.

~CC~

quarta-feira, 24 de maio de 2017

É difícil



Voltei ao yoga, desta vez adaptado a doentes oncológicos. Deve ter sido por essa pequena diferença que o professor nos propôs apenas relaxamento. Uma hora deitada no chão, conduzida pela voz dele, pelas ideias dele de paz interior.

Ir lá aos lugares felizes, a essa lembranças, associar-lhe uma cor. Como é que uma coisa tão fácil pode ser tão difícil. Lembrar momentos felizes. Nada me aparecia nítido, suficientemente capaz de me inundar, de me levar. Mais queria sair dali, fugir.

Depois consegui, fui até aquele campo de tremocilhas junto ao rio mira, ao Alentejo na Primavera, tu e eu e as nossas duas meninas, ao monte que cruzámos no meio das flores. Foi uma coisa que apareceu. E amarelo, o amarelo a pintar o verde daqueles campos. Ele insistia nas coisas felizes mas eu não fui capaz de ir mais longe, a mais momentos. Depois dei um salto enorme no tempo e lembrei-me da minha filha, do bebé lindo que ela era e de a ter ao colo assim pequenina. Mas fixo-me nessas coisas muito tempo e ele já está noutra coisa qualquer, tudo me demora tempo e esforço. Sempre a vontade de sair dali e ter que a conter, saber que é importante conter esse pensamento.

Quando acaba, ele pergunta-me como foi e tenho que dizer que foi difícil, muito difícil. E ele acerta: é-lhe difícil estar uma hora sem fazer nada? Sim, é. No entanto, foi uma aprendizagem que fiz no hospital e que não posso perder agora. Sim, ficava muito tempo sem fazer nada, só a pensar, tanto no hospital, como quando vim para casa. Mas agora o corpo pede cada vez mais movimento, a cabeça também. Mas quero parar. Uma hora no chão sem fazer nada, que difícil foi.

~CC~

terça-feira, 23 de maio de 2017

Arrepio



A miúda que se atirou do viaduto, conduzida por um curador do dito jogo perigoso (que afinal parece que nem era a sério, fazia-se só passar por) é de uma fragilidade tão grande que anula todos os estereótipos que se têm sobre uma juventude ultra mal educada, sem valores, sem objectivos, a querer experimentar o jogo para testar os limites. Terminou a entrevista a dizer aos pais para darem carinho aos filhos, se possível um beijo de boa noite. De arrepiar.

Ela não representa todos? Pois não, representa-se a si própria e já é muito para nos mostrar como às vezes andamos ao engano.

~CC~

sábado, 20 de maio de 2017

Mangas com caroço



Gostar de mangas, maduras e cheirosas, já comprei muitas más, não é fácil aqui encontrá-las boas.

Mas não saber ao mesmo se comê-las não incluir chupar bem o caroço. Ontem consegui fazê-lo e soube-me tão bem (ou soube-me pela vida, como diz a voz popular).

Ainda hoje rimos do que aconteceu há uns anos. A minha irmã estava hospitalizada, com uma gravidez de risco e levei-lhe uma manga. Diz que era deliciosa e a comeu sofregamente. A seguir nasceu a criança, prematuro de apenas 25 semanas (875g), sobreviveu e é hoje um menino com saúde. A manga pode ter acelerado o processo mas foi sem dúvida ingrediente da sobrevivência. Em Moçambique, na Ilha do Ibo, era assim que as crianças sobreviviam, comiam mangas todo o dia, eram uma oferta da natureza.



~CC~

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A grande encenação



Leio a crónica de José Luís Peixoto no último Expresso, é sobre a Coreia do Norte. Conta-nos como um país se pode encenar grande, sendo apenas miserável. E como os outros fingem não só engolir essa encenação, mas ainda a aumentam, por lhes dar imenso jeito. 

Como não lembrar as armas de destruição maciça que estavam enterradas em bunkers por todo o Iraque, a mais pura encenação de um país para justificar uma invasão ocidental. Foi ali que começou a destruição que hoje se estendeu.

Diz o JLP que ainda há carrinhas movidas a lenha na Coreia do Norte, que tudo é obsoleto e remendado mil vezes, estão a anos luz em matéria de tecnologia. Eles apenas marcham bem em linha e atiram misseis quase sempre com fracasso, falam em voz grossa e não temem a matança colectiva do seu povo. Serão loucos mas mais loucos são os que os pensam atacar.  Serão uma ditadura, tal como a Árabia Saudita, aquele país que o actual presidente dos EUA escolheu visitar em primeiro lugar. Esse mesmo em que as mulheres não podem conduzir, nem ir ao médico sem a autorização dos maridos.

Encenação, a política está cheia de grandes encenações, de mentiras que mil vezes repetidas se tornam "a verdade". E nem sempre conseguimos percebê-lo.

~CC~


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Voltar



Como voltar ao espaço profissional é difícil. E faço-o com cautela, devagar, ainda não é o regresso a sério.

O melhor chega nos abraços dos alunos...e dos colegas que foram parte da nossa luta.

Voltamos a um espaço que já não é o mesmo, na nossa ausência foram feitas mudanças, introduzidos outros elementos, desviados objectivos que eram nossos. Alguém se sentou na secretária que era a nossa e deixou marcas que demoramos a reconhecer. Agora a secretária é para ser partilhada. Tentamos ver o lado positivo de um objecto partilhado, mas é tudo tão recente que só sentimos invasão, talvez o tempo traga o outro lado. Concentro-me nesse outro lado, apagando sombras. Acho que consigo.

Constato que a marca afectiva é a única que permanece, todas as outras, desenvolvidas ao longo de anos de trabalho e profissionalismo, são fáceis de apagar. Para que foi tanto esforço?!

Faço o tal truque de desligar o botão se não é boa a luz que me chega. É, por ora, necessário accionar todos os mecanismos de protecção possíveis, hei-de conseguir trabalhar em mim esta lógica de relativismo e despreendimento. O único poder válido é o de fazer coisas e de estar com as pessoas, tudo o resto vale zero.

~CC~

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Festivais literários



Para alguns autores, os festivais literários são uma coisa de arrepiar, uma nova moda que veio perturbar ainda mais aquela paz que praticamente alguns só quebravam na feira do livro. Respeito-os e compreendo-os, algum recato e solidão fazem parte do processo de escrita. Outros gostam dessa abertura e contacto com os possíveis leitores. Gosto também desses, não sacralizam o ofício. Ao princípio também senti uma certa resistência, são tantos os festivais que tudo parece já banal e, sobretudo, comercial. 

O único do qual me tornei mais ou menos fiel foi o Fólio, em Óbidos. Tem qualidade, público, alegria e é num local muito bonito. Pouco a pouco fui sabendo da existência de mais, alguns com uma temática específica, mas não me foi ainda possível ir, conhecê-los.

Ontem conheci o FLIQ - Festival Literário Internacional de Querença. Querença é uma pequena aldeia preservada na serra algarvia e quem o dinamiza é a Fundação Manuel Viegas Guerreiro. É importante para abrir a aldeia ao exterior e criar público para os livros. A sala estava completamente cheia, muita gente em pé, quase tudo gente de fora, pareceu-me haver muito pouca da própria aldeia. Aninhado na própria fundação, o festival parece fechar-se ali em vez de descer às ruas, aos cafés, aos restaurantes, ao palco aberto da própria aldeia. Isso não impediu que tivesse gostado, sou mesmo assim, estou sempre a pensar como é que uma coisa boa ainda pode ser melhor e a achar que tudo se pode relacionar com tudo, abrindo, abrindo portas.

~CC~

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Liga mais vezes para me dares notícias dessas


O telefonema que esperava. Atrapalho-me a atender, digo frases com pouco nexo e nem consigo dizer a palavra ansiosa, é ele que diz o que penso: pois, estava ansiosa pelo telefonema.

Um dos meus médicos, é um deles, logo o cirurgião das poucas palavras e muita reserva que o diz: por ora não haverá mais quimioterapia.

Já imaginava um Verão desgraçado em que voltaria a ser mulher bomba (com infusor da quimioterapia preso a mim como andei três meses), o cansaço, o medo das infecções, o cheiro intenso do químico, os enjoos e enfim a fragilidade a acrescentar agora ao baixo peso. Sei que não posso esquecer-me de que ainda sou uma doente, de que o serei nos próximos cinco anos até poder pronunciar a palavra curada (se é que um doente oncológico alguma vez a pode pronunciar de boca cheia), mas é infinita a alegria que sinto.

Depois de ter a vida por um fio, das cicatrizes ao longo do meu corpo me evidenciarem isso todas as manhãs, da dificuldade que ainda sinto em comer, percebo que posso começar a viver, ainda que devagarinho, de outra maneira.

Apeteceu-me dizer ao cirurgião: liga mais vezes para me dares notícias dessas. Mas sei que ele não se riria, ficaria em silêncio sem saber o que me dizer.

~CC~




quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ao inverso



A sensação de viver, agora que as dores passaram, é tão boa, que nem a chuva me incomoda, penso nela como o cheiro da terra molhada. Estes são truques que nos aliviam, pensar ao inverso, cortando o mal estar. Ando a experimentar fazer duas coisas: desligar assim que alguma coisa me irrita; inverter o sentido do que não gosto, transformando-o noutra coisa.

Não é que partilhe da Psicologia positiva como uma panaceia para tudo, alguma inquietação e incómodo são e sempre serão não só um motor de mudança para o mundo, como para nós próprios. Contudo, estou cada vez mais certa que não posso voltar a deixar que a insatisfação domine parte do meu corpo, comportando com isso doença. Não acredito que a parte física não seja reflexiva face ao que pensamos e sentimos, por mais que a medicina não o prove realmente.

~CC~

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Sair



Mergulhar no verde e no azul em pleno, como um náufrago procura terra, assim ando eu à procura da natureza.

~CC~

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Regressar devagarinho



Ontem, depois de dois meses de rejeição quase total à comida, liguei para o canal que mais vi antes desta coisa tomar contar conta de mim. Aguentei 15m, não foi mau. Começo devagarinho a pensar em comida. Saudades maiores: uma boa fatia de pão, sushi.

~CC~

segunda-feira, 1 de maio de 2017

domingo, 30 de abril de 2017

Luz



A tendência dos outros para nos desapossar da nossa vontade em situações em que nos sentem frágeis é muita, ainda por cima com a benesse de que as suas intenções são boas e disso ninguém duvida. Que o digam os velhos a quem teimam tratar como meninos que não sabem decidir o que querem.

Vivemos mais ou menos entalados entre as ordens dos médicos, a vigilância da família, os milhares de conselhos dos amigos. Sinto-me muitas vezes quase como refém, alguém a quem está a ser vedado o pensamento, a vontade, a autonomia. Tudo me é recomendado, desde o creme para a pele ao que hei-de beber, quem consultar, que medicamentos tomar. As ordens e conselhos são provenientes de muitos lados e como tal nem sempre coerentes, às vezes fico confusa. Acresce que, pelo facto de precisarmos deles, isso nos deixa numa vulnerabilidade grande, muito mais susceptíveis a sermos manipulados. Metade ocorre sem que os próprios tomem consciência do facto de que nos passaram a tratar como crianças e não como adultos inteiros, e é isso que somos apesar de estarmos doentes. Mas as relações que se baseiam no poder sobre o outro e não na igualdade, que não reconhecem ao outro o direito de escolha e de saber o que racional ou irracionalmente é melhor para si, constroem sombras e não luz. 

E luz, como eu preciso de luz!

~CC~

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Do essencial



Em situações de doença, ganhamos absoluta consciência que o essencial para nós são as pessoas. São elas a parte mais importante do processo de luta que se trava. Na vida muito ocupada que antes tinha, uma das minhas preocupações era perder as pessoas, pela falta de disponibilidade que muitas vezes tinha para elas.

Umas surpreendem-nos com uma presença que não julgávamos possível. Outras surpreendem-nos pela ausência quando as sentíamos mais próximas. Pessoas pele, pessoas superfície. E isto nem sempre tem a ver com a quantidade de tempo que estão nas nossas vidas, nem com a forma como nos relacionávamos com elas no momento actual. Há amigos que voltaram a uma presença e contacto quase contínuo depois de anos de contactos esporádicos, como se soubessem que dantes o silêncio não minaria a amizade mas que agora falar é importante.

E depois há as pessoas que são exactamente como esperávamos, quer para o melhor, quer para o pior. As que são como esperávamos, mostrando toda a sua generosidade no apoio efectivo e próximo, representam o pilar, a trave mestra, o lugar a que nos agarramos. E cada uma é um pilar diferente, o que uma dá não poderia ser dado por outra. Sem elas nada poderia ser igual. A maior parte das vezes é difícil agradecer-lhes pois estas coisas não se agradecem. Então presto-lhes homenagem, mesmo sabendo que a maior parte não passará por aqui. 

~CC~

terça-feira, 25 de abril de 2017

Resistir



Esta é uma das semanas mais difíceis que tive até agora, dada a dor e a indisposição que nada tira, procuro inspirar-me nos mais corajosos para chegar à próxima sexta feira, data em que retirarão as duas próteses que o meu corpo quer e, com razão, rejeitar.

Entre os corajosos, sem dúvida, esses capitães de Abril que enfrentaram um regime que podia ter resistido levando-os à condenação, ao degredo, até à morte. Não era a primeira tentativa gorada.

Entre os corajosos também esses homens e mulheres e crianças que cruzam o Mediterrâneo, quase sempre para fugir da guerra ou da miséria.

Ou tão só a mulher que no jardim zoológico de Varsóvia, em plena segunda guerra, arriscou salvar os judeus que a procuraram.

Quando a dor chega num espasmo contorço-me até que passe, certamente sem os olhos brilhantes de quem fez Abril mas inspirada por eles.

~CC~

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Empate



Já fez um mês que saí do hospital e voltarei hoje para uma nova e dizem breve intervenção cirúrgica, está previsto sair hoje ainda.

O meu medo reside na palavra previsão. Da última vez estava prevista uma semana de internamento e uma operação mas fiquei um mês inteiro e realizei duas. Como tal, tenho medo daquele bloco operatório e do que lá se poderá passar. O medo, quando nos apanha, tende a alastrar-se como uma coisa irracional, invade tudo e não deixa espaço para pensar. Estou a lutar contra ele com todas as minhas forças mas as vitórias neste campo costumam ser apenas parciais. Contento-me com um empate com o medo.

~CC~

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ainda


Hesito onde arrumar as calças de (muito) magra que a minha irmã mais velha retirou do seu próprio guarda roupa para me dar, não lhes dou entrada directa no armário, arranjo-lhes um canto próprio. Hesito sobre o que fazer à roupa que não me serve, consegui tirar meia dúzia de calças que, creio, não me servirão mais. É como se ainda estivesse à espera do meu eu de volta, como se esta estivesse a prazo e não para ficar. 

Também hesito sobre o cabelo cinzento, já tive quase a correr a pintá-lo com tinta natural, desisti por pensar que ainda vou ter que o rapar novamente. Não é feio o cinzento e há inúmeras mulheres a recusar as tintas, é quase um movimento. Mas não nos enganemos, deixa-nos a idade bem presente, a clara indicação que o caminho é só um e é rápido. Muita gente passa por mim e não me conhece, não lhes levo a mal, eu própria ainda não me conheço o suficiente.

~CC~

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Duas mulheres



Duas mulheres que já não eram jovens. Vinham pela rua de mão dada, passeio perto do mar. Felizes com a sua audácia, fortes por enfrentarem o preconceito. Sorriram para mim. Também lhes sorri, não tão abertamente quanto gostaria de o ter feito. Na verdade vinha ligeiramente distraída, encantada pelo sol.

Não estou certa que o mundo esteja preparado para as deixar dar as mãos quando quiserem, onde e como quiserem. Mas para mim não faz diferença alguma, pelo contrário, o gosto por ver as pessoas a viverem a vida, a sua vida, faz-me bem.

~CC~

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Sul


A praia está vedada para mim, só um passeio ao fim da tarde. Sabemos que sol e cancro não se dão.

Por isso escolhi o campo. E não me arrependi. Trago comigo um intenso cheiro a flores de laranjeira. E como gosto desse cheiro. Tem também uma memória associada, a de Sevilha há uns anos atrás, os bairros mais antigos tinham este cheiro, nunca o tinha sentido tanto numa cidade.

São as pequenas coisas boas que procuro.

~CC~

terça-feira, 11 de abril de 2017

Mais Sul



Desci mais para sul e colhi com os olhos e pelo Alentejo um monte de estevas, das minhas flores de campo mais adoradas, parecem feitas de papel muito frágil, pontuam a paisagem de branco e amarelo deixando-a clara, límpida. Tinha muitas saudades desta viagem em tempo de Primavera.

~CC~

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Paragem obrigatória (IV)



Foi muito importante para mim ter ido, ter conseguido ir, ter vencido barreiras que agora me parecem quase intransponíveis, tais como, simplesmente, escadas. As pausas nos bancos colocados pelo meio da exposição foram imprescindíveis para aguentar, dantes perguntava-me pela sua função, agora percebo-a tão bem. 

Não percam a exposição do Almada Negreiros na Gulbenkian em Lisboa, monumental tal como o artista o foi. Obra multifacetada, inequivocamente a gostar mais de umas coisas do que outras, mas sempre a reconhecer o toque de génio, bem presente na vontade de viajar por estilos diferentes. Há um traço Almada? Creio que sim. Um traço viajante, inquieto, bailarino.

~CC~

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Corpo


A máquina avança sobre o meu corpo e tenho medo. Como é possível, já fiz dezenas de vezes aquele exame. Mas agora é como se eu e a máquina tivéssemos perdido a intimidade, ela voltou a ser um objecto estranho a puxar-me para dentro e para fora. Tenha calma, demora segundos. Tem razão, mas também eu preciso de uns segundos, de uma volta lá fora. Depois volto, consigo fazer o exame.

Menos estranha que a máquina as mãos do fisioterapeuta, estranhamente nunca me assustou nem intimidou. Tem um ar de menino, não de homem. Olho-o e parece-me que ele é ainda uma criança, nada de agressivo pode vir dali. Como construo confiança com base nestes meros sinais. Ele fala muito e quase nunca o oiço, percebo apenas quando dá instruções e deixo-me guiar. São instruções doces. Creio sempre ter ficado a meio do esforço que me pediu mas ele conhece bem a dinâmica do reforço e procura entusiasmar-me. 

Queria dizer-lhe como é estranho que cuidar do meu corpo se tenha tornado a principal tarefa da minha vida, eu que tanto me esqueci dele. Mas há coisas que não posso dizer-lhe, não alcançaria. Chega-lhe ser um menino, um bom menino. Hoje brincámos às provas de esforço, consegui 14 voltas para 6 minutos, coisa que o deixou feliz. Como eu queria ficar feliz quando ele fica, podia embalar-me naquela motivação de profissional recente, que bom seria.

~CC~

sábado, 1 de abril de 2017

Isto de agora ser uma mulher



Como mantemos a identidade em situações em que o nosso corpo é objecto de profunda transformação? Quando o espelho nos devolve uma imagem que nunca vimos e nos diz que somos nós?

O meu cabelo começou a crescer pois parei a quimioterapia há cerca de três meses. Tenho-o agora muito curto, desigual, ligeiramente espetado (naturalmente) e mercê da mistura entre brancos e pretos, está cinzento. Não sabia como estava pois pintava-o, acho que como a maioria das mulheres, tinha escolhido o castanho claro que era a cor da minha infância. Com o tempo acabava por ficar quase louro e as pessoas gostavam do tom, combinava bem com a minha pele. Para além do cabelo cinzento, terei menos 10 a 15 k, ou seja, sou oficialmente uma pessoa magra. Não era gorda antes, tinha talvez uns 5k a mais do que seria o meu peso ideal, o que me conferia um aspecto de gordinha ou talvez nem isso mas de certeza uma mulher com formas, com curvas. Ironia das ironias, às vezes queria emagrecer. Valia-me tu gostares de mim como eu era, não teres expectativas de me tornar mais elegante.

Por isso hoje olhar-me ao espelho significa muitas vezes confrontar-me com uma imagem andrógina, sinto-me quase um rapazinho, não obstante os cabelos cor de prata não me esconderem a idade. Sinto-me desconfortável na maioria das roupas, algumas antigas são impossíveis de vestir, outras visto, mas a sua largueza faz com que nada pareça o mesmo. Só uso sapatos rasos pois com a perca de peso estou muito fraca e não quero perder o equilíbrio. Eu usava saltos, não propriamente agulha, mas quase sempre algo que me conferia mais altura e gostava do efeito. Não tenho também muita vontade de comprar coisas novas, nem posso gastar muito dinheiro pois os gastos em saúde têm sido brutais. Não sei se com a imagem, outras coisas associadas se foram perdendo, designadamente este sentimento de ser mulher, mulher significa um ser sexuado, com inteira consciência do seu sexo, e isso é coisa que tenho pouco. Não quero dizer que tenha perdido a consciência de género, isso é outra coisa, é consciência social e essa mantenho igual.

Esforço-me, por ora, por duas coisas: me sentir um ser humano e não constituir um peso na vida dos outros. Isso significa passar ao lado dos espelhos na maior parte das vezes. Outras, mais raras, ponho uns brincos e acho que até não estou assim tão mal.


~CC~

quarta-feira, 29 de março de 2017

Sapatos amarelos



Foi um sonho estranho mas feliz. Talvez o primeiro dos sonhos felizes em muito tempo mas na verdade poucos sonhos tenho recordado. No hospital praticamente não dormia e essa vigília foi importante, eu e os enfermeiros sabíamos que toda a atenção era necessária para que o corpo não me abandonasse. Uma das noites tinha uma enfermeira a espremer os drenos de hora a hora (chama-se mugir). Pela manhã agradeci-lhe emocionada e ela mostrou-me os olhos rasos de lágrimas.

O sonho feliz, um absurdo sinal de luz. Procurava por todo o lado uns sapatos amarelos para combinar com a Primavera que chegava. Calçava inúmeros sapatos amarelos em várias sapatarias, enquanto tu me seguias entre o atónito e o cordato, como se compreendesses o valor daqueles sapatos amarelos. E ria-me bastante, nenhuns deles eram exactamente como eu queria. E começou também a chover, não obstante estar calor, muito calor. Como é que depois de tudo isto sonho com uns sapatos amarelos, uma coisa tão tonta, tão fútil? Não sei mas sei que é bom, é muito bom.

~CC~

segunda-feira, 27 de março de 2017

A voz do teatro



Era tão jovem. E nunca mais houve uma voz como a dele. Profunda, calma, firme. A maior parte das vezes dizia sempre o mesmo: temos que ter a coragem. E a coragem era estar naquela sala e entregar-se, não nos escondermos, tirarmos qualquer coisa de dentro para por cá fora. Era o teatro. Não houve outro lugar no qual tivesse crescido tanto como nas oficinas de expressão dramática que frequentei entre os 16 e os 18 anos. Não houve também outro adulto com mais influência sobre mim do que o João Mota, que teve a generosidade de acolher aquele bando de adolescentes no seu regaço como quem acolhe um bando de pardais sem ninho. Nunca mais deixei de amar profundamente o teatro.

Pedes-me agora que pense na frase que ele dizia também como incentivo, alento para a minha vida., para este presente.Ter a coragem. Tenho-a gasto tanto, tenho-a usado tanto, creio que a fonte não é inesgotável. Chega-me às vezes a fraqueza agora, não se traduz em choro, não se traduz em mágoa, é só incerteza, dúvida, algum vazio, fico ali parada naquela curva do horizonte a pensar em quem sou, em quem serei, em como será ficar, em como será partir. Não quero fazer despedidas, não quero pensar em ir, mas às vezes sem saber como já lá estou, e tenho que me esforçar para voltar atraz, pensar que há uma nova casa da partida. A voz dele, não sei se a voz dele me pode ajudar, mas foi em tempos a voz mais bela que conheci, mais poderosa. Era o teatro, a sua força e magia em pleno.

~CC~

terça-feira, 21 de março de 2017

Do que sobra


Sobra pouco da vida que eu já fui. Por ora sobra pouco. Não posso, não consigo evitar essa tristeza, não obstante me ter salvo, salvo por pouco, por um triz, como aconteceu outras vezes. Mas desta vez vem com muito mais cicatrizes.

Nesse pouco que sobra de mim cabe inteiro ainda esse gosto por essa forma de dizer a vida que se chama poesia.

~CC~

domingo, 12 de março de 2017

Vivas, sempre prontas a ser felizes


O silêncio deve ter dito quase tudo sobre como foi difícil lutar pela vida, depois de 15 dias nos cuidados intensivos (muito escreverei sobre isso mas hoje não), ainda me encontro no internamento. A previsão inicial era de 7 dias de pós operatório. Mas mãos que escrevem são sem dúvida mãos já com outra esperança. E hoje fazem-no não tanto para falar de mim mas sim de uma das razões mais fundamentais para eu estar ainda aqui: ver a minha filha fazer 21 anos. Poder apreciar cada dia que a vida imprime no seu olhar, acrescenta dentro dela, expandindo tudo o que antes era semente. Só essa felicidade tão intensa seria capaz de anular sombras e mais sombras que foram caminhando sobre mim enquanto eu tão teimosamente as soprava. Cheguei aqui, eu e ela vivas, inteiras e solidárias, tão prontas para sermos felizes.

Os parabéns. O abraço mais longo de sempre, vindo de lá do fundo, da sobrevivência.

~CC~

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

De alguma forma lá



Terei o jantar de namorados mais original de sempre. Será amanhã, em pleno hospital, com dois amores e não um, já que amor inclui, penso eu, mais do que um companheiro ou companheira, são aqueles que amamos. Não fora a impossibilidade, faria mesmo lá um jantar de amigos, de muitos abraços. Assim, ficarão muitos por dar.

A importância das coisas, destas coisas dos dias x e y, é muito relativa, eu vou variando, permeável que sou a tudo o que me rodeia, não lhe fico completamente indiferente mas também não lhe dou atenção especial, à medida que cresce o intuito comercial, o meu desprezo aumenta. 

Desconheço se o hospital terá ementa original para o dia, provavelmente o ambiente hospitalar, imune a quase tudo, também o será a estes rituais. Desejo apenas que o cirurgião beba com moderação na noite anterior, para que as suas mãozinhas possam acertar nos sítios certos.

Se tenho medo?! Não lhe chamaria assim. O que me inquieta é a minha própria ansiedade, traduzida nesse pânico de estar em sítios fechados, onde outros têm mais controlo sobre mim do que eu própria. O exercício de pensar que esses outros estão ali não para me aprisionar, prender, roubar a liberdade assemelha-se a um longo e penoso jogo de auto domínio, coisa para a qual já demonstrei ter e não ter capacidade. Nessa noite que será longa, nessa manhã, bem cedo, terei que dar o melhor de mim. 

O amor, esse ingrediente, esse tempero, também de alguma forma fará parte.

~CC~


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Paragem obrigatória (IV)



Foi este verão que conheci a Elena Ferrante, tão tarde mas ainda a tempo. Li os quatro volumes, cujo primeiro se intitula "A amiga genial" num instante. Apanhei a polémica em torno da identidade escondida dela e a sua dita revelação (que eu saiba, não se confirmou nada). Não sei se ela faz mal ou bem, tudo o que é escondido suscita ainda mais curiosidade sem dúvida mas ela está também no seu direito de não entrar nos festivais literários e outros eventos que trazem os escritores até ao público. Amei a escrita dela, ao mesmo tempo que me sentia muitas vezes enganada. Ela sabe do que falo, pois não há nada sobre o qual ela escreva melhor do que sobre os sentimentos contraditórios que nos habitam, como o amor pode conter ódio e o ódio pode conter o amor. A escrita dela prendeu-me mas nem sempre gostava dessa prisão, sentia muitas vezes que ela usava e abusava de um truque (habitual das telenovelas) para nos fazer ir de um livro a outro, a forma como cada um deles acabava deixava-nos sem hipótese de não começar a ler logo o seguinte. Foi assim que me emprestaram os dois primeiros e comprei logo os outros dois. Deixar o leitor arrasado no fim de um livro, absolutamente preso de saber mais, querer mais, é talvez obra de génio. Mas ao mesmo tempo é limitador da nossa liberdade, revelador das nossas fraquezas, é uma via directa para o lado voyeur que há em cada um de nós, sentia que esse jogo me irritava, que ela era tão boa escritora que não precisava de o usar.

Agora ofereceram-me "Escombros" e leio-o devagar, mais próxima dela do que alguma estive, embora não deixe de ser estranho ler um livro sobre dois outros livros (os primeiros) que eu não li. Mas gosto da ideia, por exemplo, se apanho um filme ou uma série a meio não volto para trás, gosto do jogo de tentar descobrir o que está para trás e se consigo entender só apenas a partir do meio. Este livro não é um romance, é uma viagem ao seu universo, ao que a faz escrever. Algumas das coisas que diz são como se fosse eu a dizê-las, são as minhas palavras.

~CC~




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Do que não sabem...




Exame a exame, cada um deles pede mais um, numa cadeia que me parece interminável. Sinto-me absolutamente escrutinada, vista por uma lupa fininha que vê tudo o que antes permanecia incógnito, silencioso. Há sempre mais qualquer coisa que está mal ou parece mal, há sempre que saber mais. Apetece-me dizer-lhes que não me acordem os monstros interiores que dormiam sossegados, que tanta inquietação não lhes fará bem. Que não me digam tanto, escondam qualquer coisa só para eles. Escapa-lhes, contudo, qualquer coisa que é só minha, uma alma meio partida, e dessa é que eu tenho que tomar conta. Eles aí não mexem, não querem mexer ou ignoram que temos mais que ossos, artérias, células. Dessa coisa de dentro, chamada pessoa fala-se quase nada. Trato dela só eu, ando a colar-lhe os cacos para ver se me sustenho e vou por diante.

~CC~

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Humilhação suave


Vou lá às vezes. É um lugar pequenino e pouco atractivo mas com comida muito boa, sobretudo doces. Trata-se de um casal nas antípodas um do outro e aparentemente pouco comum. Ele cozinha, ela faz tudo o resto. Ele é extremamente comunicativo, ela calada, reservada. Ele fala com todos os clientes, fala sozinho e fala com muitos amigos que por lá aparecem ou que se tornaram amigos por lá aparecer. Normalmente diz coisas um bocado parvas, tem um olhar insistente com as mulheres e usa uns elogios sem grande graça, naquele género engatatão que a mim me passa ao lado. Ela tudo ouve e não liga, fixa o olhar em nós, fingindo-o inexistente. Ontem, com um amigo, dizia o seguinte:

- Uma mulher para me levar daqui tinha que ser muito especial. Mal por mal fico com esta.
- Mas ninguém está a falar disso, só de divertimento.
- Não, apaixonar-me isso sim, deixava esta por uma mulher especial.

Esta conversa era feita em voz alta, não como dois amigos que falam num canto, a mulher ouvia tudo, vi-lhe os olhos vagos, perdidos, a dificuldade em concentrar-se no pedido que lhe fazia.

Eu tinha-o deixado ali mesmo, saía porta fora e ele que tratasse dos clientes nesse dia...e já agora também nos seguintes. 

Esta violência suave é tão humilhante para as mulheres, não sei como aguentam. É com frequência que namorados e maridos elogiam outras à frente delas ou as comentam ainda com mais pormenor, fingindo que elas não existem, não estão a ouvir. Um sufoco este país marialva.


~CC~

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Breves (I)




Na minha rua passa tanta gente. Mas ainda não tinha passado aquele rapaz, usando o skate como guarda chuva.

~CC~

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

De olhos presos no tecto



Já não tenho lágrimas para chorar a tua tristeza, esta noite queria deitá-las e não conseguia, deixava ficar os olhos abertos presos no tecto do quarto e nesse branco passavam imagens das nossas vidas juntas. Foram muitas as vezes que te vi debruçada no negro dos dias mas nos últimos anos querias mesmo pendurar-te no sol. Depois chegou isto, este bicho ruim que te visitou primeiro e de forma mais grave. Via imagens no branco do tecto, a tua voz tão certinha a cantar aquele sorriso, nós nos anos 80, já tão adultas, ainda tão adolescentes.

Já não tenho lágrimas para chorar a forma como as nossas vidas se desagregam, como sobram pedaços que não sei colar. É uma tristeza que se cola ao corpo e faz com que o meu doa como se fosse uma parte do teu. Não poderei dizer-te estas coisas, nem estas, nem outras. Viajas para lugares tão longe, a minha voz já não chega lá, deve ser isto a que se chama impotência. Ainda assim eu sei, uma amiga é um calor que fica para sempre.

~CC~



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Inverno em saldo



Reparo que as montras estão a mudar, enchendo-se de branco, tons pastel e flores. Noutros sítios a Primavera, que na realidade ainda parece tardar, disputa o lugar com o Inverno em saldos, já quase ninguém o quer. Ultimamente anda a fazer das suas, lançando vento e chuva. Mas eu ainda vasculho nele e trago um pijama por 8 euros, umas pantufas por 6, umas meias por um. Preparo-me para a operação, para a clausura que a seguir virá. 

Mas o meu olhar, esse de quando em quando fica preso numa roupa de flores, imaginando um vestido na brisa ligeira da tarde.

~CC~

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Sem...



O cabelo cresceu ligeiramente desde o dia 9 de Janeiro, dia em que cessei a quimioterapia. Mas ainda sou uma pessoa careca. No entanto, a libertação da bomba infusora, o regresso de alguma da minha energia, uma imersão temporária no local de trabalho, tudo isso quase me fez esquecer que estou doente, que aguardo a operação, que ainda não é o fim mas o terço do caminho.

Resultado: hoje saí pela primeira vez à rua sem boina ou chapéu, simplesmente esqueci-me.

Não sei se olham mais ou menos para mim como mulher careca ou mulher de chapéu. Talvez o olhar para a mulher careca contenha essencialmente pena, já para a mulher de chapéu, é mais incisivo, julgando talvez a excentricidade ou um eventual traço de classe (pensa que é alguma princesa ou rainha?). Mas na verdade, diria como Caeiro, nada sei do olhar dos outros, é só um olhar e mais nada.

~CC~

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Paragem obrigatória (III)



Há muitos livros sobre cancro, quase nenhum despertou a minha atenção. A excepção foi o livro "Uma parte errada de mim" de Paulo M. Morais. Conta a sua história sem nos dar grandes conselhos, acho isso fundamental, os sapatos de um outro raramente nos servem, precisamos de os moldar aos nossos pés, ainda assim podemos experimentá-los e ver como é andar neles. Foi assim que li o livro dele.

Nele encontrei a expressão dos tempos do medo e também de como se perde o medo. Ele conta como nos seus primeiros tempos, após a descoberta do linfoma e das primeiras sessões de quimioterapia, tinha medo de todo o tipo de contágio, ou seja das pessoas, as principais portadoras de vírus e bactérias. Evitava transportes públicos, cinemas, teatro, qualquer auditório cheio, qualquer contacto de proximidade. Levava a máscara quando era obrigatório estar em locais mais frequentados. Eu passei pelo mesmo, por esse medo atroz quando alguém perto de mim espirrava ou tossia.

E conta como um dia, farto de ter medo, foi andar de autocarro por Lisboa, de como foi bom. Eu também não consigo viver com medo, as saudades que eu tinha de cinema era tantas que me faziam mal. Domingo fui, mas já tinha começado antes a perder o medo. Houve espirros e tosse no cinema e sim, tive um bocadinho de medo, mas o gosto por estar ali superou-o. A cura, se nos isola, também nos mata, talvez só mais lentamente.

~CC~

sábado, 28 de janeiro de 2017

Ela em casa




- Mãe, o que te faz ficar com ansiedade, stressada?
- A injustiça!
- Oh mãe, estou a falar disso que agora vais fazer, uma entrevista, uma comunicação, uma reunião...quando tinhas exames, essas coisas.
- Não, a injustiça, a que é praticada comigo e com os outros, isso tira-me do sério, revolta-me*. Talvez também o que sentia antes, estar sempre atrasada em relação a um compromisso qualquer, não ter tempo para fazer bem tudo o que queria fazer e portanto ter consciência de só o fazer mais ou menos, não corresponder ao que esperava de mim própria, e...
- Ok, ok (tem que continuar a estudar e quando ela diz ok  acabaram-se as respostas e as explicações).

~CC~

* Devo dizer mais, revolta-me até às entranhas, essa parte doente de mim, na qual reconheço sim, a ansiedade se depositou como um mal.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Ainda assim


Foi há dias, fui e voltei a Lisboa de comboio. Mais ou menos a meio do percurso elas entraram.

As quatro, tão diferentes, pelo vistos a trabalhar no mesmo sítio, colegas de trabalho no regresso de uma jornada, comboio cada vez mais vazio por já estar perto da estação terminal. Falavam alto.

A de cabelo curto, lábios vermelhos, vários piercings, desafiava a colega de ar mais pacato e fatiota mais tradicional para ir com ela. Um dia, um dia tens de vir comigo! Até eu fiquei com vontade de ir com ela, de tal modo lhe brilhavam os olhos negros e persistentes. E a outra que não, que nem pensar. Até que lhe diz: se eu pudesse sabes onde ia? Ia até à minha sala de estar,  sabes que se passa uma semana inteira e não entro lá? E às vezes nem ao fim de semana. Imaginei uma mulher com dois filhos pequenos (ela tinha falado neles) que numa semana só entra nas divisões da casa associadas ao trabalho doméstico, a cozinha, os quartos, passando ao lado da sala onde os outros, os outros ficam. E a morena, tão indignada como eu: nem te digo o que eu penso disso... E eu comigo própria: nem eu.

Fiquei a pensar no dia, no dia em que a morena conseguiria levá-la com ela à aula de Kickboxing e ela aprenderia a dar um murro na mesa da cozinha e depois disso iria sentar-se confortavelmente no sofá da sala, deixando-lhes a pilha dos pratos sujos.

Não mais que 30 anos a média de idades daquelas quatro colegas de trabalho.

~CC~

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Terapia da dor


A dor insinuou-se desde ontem e foi resistindo à dose recomendada de paracetamol, vai fugindo mas situa-se invariavelmente abaixo ou acima do ouvido esquerdo e às vezes lá dentro. Não sei o que significa, a que corresponde, qual é o seu sentido, é mais do que dor, é já medo que seja um sinal de outra coisa qualquer. O processo terapêutico inclui dar-lhe apenas a importância devida, não deixando que me domine e apavore. Actualizo a lista de blogues lidos, companhias quase diárias, há muito que os devia ter posto a brilhar na barra do lado, como vizinhos queridos.

~CC~

PS. Ao actualizar o blogue percebi que há muito estava a funcionar com a hora do Pacífico, se fosse o Índico, ainda poderia encontrar como justificação ter lá ficada um pedaço do meu coração, assim talvez seja um dos lugares para onde viajam os meus sonhos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Eles estão em casa



Eu: o programa de hoje conta com o P.
Ela: é aquele que é parvo e é de direita!
Ele: é de direita sim, mas não é parvo...
Eu: é de direita mas gosto dele.

É isto tê-los em casa. É bom. Acrescentar que há 30 anos atrás as palavras dela seriam as minhas.

~CC~

domingo, 22 de janeiro de 2017

Paragem obrigatória (II)




Há poucas coisas para ver na televisão, às vezes algumas séries e filmes interessantes. Em geral não gosto de ver programas com gente a falar, mesmo que dita inteligente, os comentadores, sejam quais eles quais forem, enchem-me de tédio. A realidade precisa pouco de comentários, nós sabemos pensar.

Acontece agora a excepção com o "curso de cultura geral" de Anabela Mota Ribeiro que passa na RTP aos domingos à noite.

Na base uma ideia excelente. Se cada um pudesse escolher dez coisas que devem constar num curso de cultura geral, o que escolheríamos? E notem, podem não ser apenas filmes, livros, podem ser lugares, espaços, quadros...Gosto porque as listas que os convidados fazem se entrelaçam com as minhas e me levam para coisas que ainda não conheço, reforçam objectos amados e me lançam interrogações sobre outras das quais não gostei. E as listas são só o pretexto da conversa que teima em fugir como se estivessem na mesa de um café.

O nome do programa parte ele próprio de uma história deliciosa e publicada em livro por Sheilam Graham Ela, descobre, já adulta, todo um mundo desconhecido mas fascinante, no qual as pessoas falam de muitas coisas que ela não conhece (quem já não se sentiu assim? Só mesmo que nasceu no berço do cânone intelectual). Pede a F. Scott Fitzgerald’s, seu amante, que elabore para ela um curso de cultural geral, o livro é o retrato dessa relação entre os dois, pautada pela ideia de que a educação é cultura e que não há idade para o saber. Sim, eu acho que a educação pode não ser só cultura, mas também o é. Não uma cultura para se exibir, afinal igual a quem mostra um vestido, é que também há muita gente assim. Uma cultura que assenta em chaves, cada vez mais chaves para nos abrirem portas para mais e outros horizontes. Afinal a lista das dez coisas talvez não seja fixa, mas mutável.


~CC~

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Consultório



O cirurgião explicou tudo ao pormenor, toda e qualquer infecção do antes, do durante e do pós operatório. A cada explicação eu ficava branca que nem cal, pelo que a seguir, ele dizia: mas é pouco provável. Eu lá fazia um sorrisinho. Tratava a cirurgia por "grande" e de cada vez que o dizia, eu ficava novamente branca, até que tive coragem de lhe perguntar o que era uma pequena. Fiquem a saber que é tirar a vesícula, o apêndice, as amígdalas, qualquer desses órgãos menores, coisinhas de nada que só empatam. Seguiu-se a descrição dos drenos com os quais eu ia ficar e dos dias que durariam introduzidos no meu corpo, estes também com possibilidade de infectar. Sabem de que cor é a neve? Pois... Antes que eu desmaiasse, ele disse: mas é o que acontece aos fumadores, aos alcoólicos, aos que abusam do açúcar, aos hipertensos, aos doentes do coração...enfim tudo gente que se porta muito mal. Ocorreu-me dizer-lhe: essa coisa do coração, doutor, é que me preocupa, eu não sei bem o estado do meu coração. Mas calei-me, a tentar recuperar a cor.

~CC~

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Estar com ela




A principio é simples, anda-se sozinho

passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho

...

Sérgio Godinho

Eu diria exactamente o contrário face aos processos de doença prolongada. No princípio estamos muito acompanhados, chovem as mensagens, os telefonemas, os mails, até desejamos alguma paz, que se esqueçam um bocadinho de nós, não temos mãos nem cabeça para responder a todos. A princípio também nos querem incluir, ou seja, dão-nos ainda um bocadinho do espaço profissional que era o nosso, mas com o tempo vão-se esquecendo dessa partilha de territórios, assumem o barco a todo o vapor. 

Vão rareando mais e mais os contactos, os pessoais, os profissionais, todos eles. Não o digo com mágoa, muito menos com algum tipo de repreensão. Compreendo muito bem a velocidade a que a vida corre, o modo como as pessoas se ocupam entre emprego, casa, família, com pouca ou nenhuma disponibilidade para o resto. Até se lembram de nós, mas o pensamento foge entre as últimas compras à pressa e a urgência de uma tarefa que se trouxe do emprego para casa para acabar. Eu fui assim. Eu sei como é. Por isso acho que me preparei mais ou menos bem para contar quase só comigo e com ela, a solidão. E não adianta dizerem-me que tenho este ou aquele, que o outro ou a outra vem ou que posso sempre ligar a alguém. Eu não preciso de me preparar para a companhia, para os momentos em que não estou só, para aqueles tempos mais calorosos em que os outros fazem questão de dizer que nós ainda contamos para eles. Eu preciso de me preparar para um vazio que é só meu, que eu tenho de saber preencher, se possível, até desfrutar. Ter a solidão por companhia numa vida em que ela era quase coisa rara é uma aprendizagem difícil e não vejo só por mim, mas por outras pessoas que neste momento estão tão ou mais doentes que eu. 

As pessoas que estão muito ocupadas mas não estão doentes, irão ansiar pelo tempo que temos, quase invejá-lo. Eu sei, eu já fui assim. Quando sabia que alguém estava com atestado médico, pensava nas múltiplas coisas que aquela pessoa poderia fazer com o seu tempo. Mas nada é bem como parece. Nem sempre podemos ir a correr ao teatro, ao cinema, sair, passear na praia, ler, comer, beber, desfrutar a vida. A doença é bicho que rói o corpo e às vezes também a vontade. Nos tempos mais difíceis quase que não conseguia sair de casa, nem para tomar a injecção que devia, tal era o cansaço. Por isso há que aprender a estar com ela, a solidão, ou nós connosco.

~CC~


domingo, 15 de janeiro de 2017

Paragem obrigatória (I)






"Estou aqui de passagem, é para seguir em frente, sou de ferro e ninguém me dobra. Em silêncio, sou sempre eu e o que de mim se compõe e apruma"

Isabela Figueiredo, em "A Gorda"


Um livro magnífico, ainda mais do que o primeiro. Mestria na língua cheia, viva, dura, rente à pele. Lê-se num instante de tal modo ela nos agarra à casa dela, ao corpo dela. Sem fronteiras ou de fronteiras fluídas, como anuncia na advertência inicial: "Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade".

~CC~


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Voltar



Tinha recomendações para andar de máscara e não dar beijos a ninguém. Tinha avisos de muita gente para não ir. Mas por um mês, mês e meio serei uma mulher sem bomba infusora, sem o sabor do químico. Por isso não resisti. O abraço das quatro jovens alunas no átrio da escola ainda me aquece por dentro. Hei-de constipar-me por certo, talvez apanhar uma gripe, mas enquanto estiver viva, não hei-de ficar sem o melhor que a vida tem para dar.

~CC~

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O retorno



Nasci em África, naquela África branca mais para o pobre do que para o rico, de que pouco se fala. Apenas o ordenado de um pai polícia sustentava uma família com três filhos, um pouco mais tarde, quatro. Não havia luxo algum, eu andava na escola pública angolana. É verdade que tínhamos direito a um criado de cor negra (pela própria polícia) e a uma boa casa, isso mostrava que a nossa miséria era em tudo diferente da miséria dos negros. Como tantos outros, diríamos que a vida lá era maravilhosa. Era muito fácil ser feliz numa terra quente, com uma luxuriante natureza, com tempo, com o frenesim da celebração da vida. Uma terra onde a esperança não era um sentimento que se quer para o futuro, estava incorporada na própria vida.

Era apenas uma criança de dez anos quando voltei para Portugal e me tornei numa retornada, coisa que vim a descobrir ser má, por força de termos sido todos exploradores de negros. E sim, de certa forma, não havia propriamente inocentes. Todos sabiam que aquela era uma terra ocupada, há muito que a guerrilha o fazia sentir. Também não houve culpados. Por isso nunca tive, nem alimentei ódio a ninguém, muito menos aos políticos portugueses que trataram da descolonização e que são corporizados erradamente em Mário Soares. Nenhum deles poderia pagar pelo sofrimento destas crianças, homens e mulheres forçados a deixar o lugar que amavam mas que não era realmente a sua terra, por mais que isso lhes custasse a admitir. Não nego o sofrimento, vivi-o na pele, pobre era também a família que cá nos esperava, difícil e tormentoso acolhimento. Com a agravante desta terra nos parecer fria, chuvosa e triste. Mas como não apreciar e agradecer o que nos deram, mesmo tendo sido pouco? Como não agradecer aos políticos que criaram as condições necessárias para não morrermos de fome, não ficarmos sem tecto, podermos continuar os nossos estudos? Vivi de leite e queijo vindo da Holanda que íamos buscar a igrejas e a instituições de solidariedade. Mas quantos nestes tempos de crise não viveram de igual modo?! A quem culpam?!

Todo este ódio que começou a destilar assim que Mário Soares ficou doente é uma coisa anacrónica e injusta. E abre feridas que se julgavam cicatrizadas e cuja dor não nos é já necessária. Eu, pelo contrário, não tenho ódio algum, aprecio todos os que sabem rir, amar a vida, como ele sabia.

~CC~

PS. Dulce Cardoso não escreveu apenas a vida dela quando escreveu "O retorno", escreveu também uma parte da minha vida. O livro não tem um pingo de ódio e agradeço-lhe por isso. Um dia talvez lhe diga.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Um terço do jogo



Como é que se designa alguém que venceu apenas ainda um terço do jogo? É um terço que marca uma parte do caminho, abrindo outra nova e diferente etapa.


~CC~

sábado, 7 de janeiro de 2017

Meus amores, meus queridos



Entre as terras das quais me sinto um bocadinho filha, piscatórias e a sul, há lugares onde se come bem e barato. Ontem e hoje, duas tascas diferentes, uma de peixe e outra de comidinha de panela. Em comum o sermos tratados por "meus amores" e "meus queridos", com um acentuar do "r" que era muito típico desta cidade, sobretudo nos bairros mais antigos. Não há nada de falso ali, fazem-nos sentir como família, como parte integrante da cozinha ou do grelhador, como alguém que voltará sempre e não está ali de passagem. Não conseguimos bem distinguir quem são os empregados ou os donos, embora haja uma mulher que num e no outro caso se destaca, é ela que nos cumprimenta quando chegamos e saímos, que recomenda a comida, que vem saber se está tudo bem, se queremos mais um bocadinho de alguma coisa. E isto de querer mais um bocadinho, sabendo que não o vamos pagar, faz toda a diferença e a sério, não uma mera cortesia. Hoje foi uma travessa de arroz de tomate que estava absolutamente delicioso.

Na tasca de ontem somos de facto clientes mais ou menos habituais mas estreámos a de hoje, ocupando uma das três mesas lá existentes. E saímos como se há muito a frequentássemos, com a certeza de que vamos voltar. Anos luz das mesas dos chefes com estrela mas tão, tão bom. E rimos tanto e com tanto gosto, uma coisa que se faz só nestes sítios em que a comida é mesmo um conforto, um laço.

E que receio tenho de que a cidade, cada vez mais referida nos roteiros turísticos, perca estes sítios. Estes lugares onde somos amores e queridos.

~CC~


PS. Hoje até me esqueci de tomar os comprimidos para o enjoo e vá lá saber-se porquê...não enjoei mesmo nada.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Deus, deuses, deusas



Não posso deixar de dizer que sim, nestes últimos quatro meses senti algumas vezes vontade de entrar numa igreja. Mas não foi para encontrar Deus, apenas o silêncio que a civilização me roubou. Talvez alguma paz. As conversões a um culto religioso quando a morte se intromete no caminho da vida são mais que muitas. Algumas impressionaram-me por serem de ateus convictos, percursos inteiros ligados a outros horizontes, outras crenças (por exemplo, Maria Barroso, perante o acidente do filho João). 

Já eu seria incapaz de rezar por mim própria, de pedir a Deus que me salve, se existe, parece-me profundamente injusto fazer-lhe esse pedido com tanta coisa que lhe poderia pedir, quantas vidas se poderiam salvar de uma vez só se certas coisas não existissem (por exemplo, alguém a entrar a disparar numa discoteca na Turquia). Também não me posso converter pensando numa outra vida, num suposto além no qual eu ou parte de mim teriam continuidade, pois isso seria apenas um negócio, oferecer a minha fé em troca de um poiso no infinito. Também não me atraem outros percursos alternativos, integrados de uma mística susceptível de sossegar-me, pois há muito que eu acho que somos meros pontinhos no universo, só os pontinhos que nos tocaram é que sentirão a nossa falta. Sou pequena, sou finita, sou mortal. Bem sei que assim tudo é mais difícil, mais penoso, mais labiríntico. E se eu tinha razões para acreditar pelo menos nos deuses. Primeiro porque tenho o nome da deusa terra, coisa com que o meu pai me brindou para enfrentar a vida, depois por já me ter salvo da desgraça e da morte uma série de vezes. Coisas mirabolantes que não acontecem a quase ninguém ou que parecem de filme. Perante isso, isto é tão terreno, tão real, acontece a tanta gente, está a acontecer-me algo que me pode matar mas que é quase trivial. Sou uma entre milhares, mesmo com o meu nome de deusa.

~CC~






quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Magia



Ao 3º ciclo de quimioterapia, 3º dia, o corpo parece estar a ceder, o milagre de ir até ao fim do ciclo sem mal de maior parece estar a gorar-se. Na segunda feira, o vaticínio das análises já anunciava, os glóbulos brancos baixos, a anemia em crescendo. Ainda assim como não decidiram parar o tratamento, continuei a achar que a minha vitória seria certa. 

Se a alma não existe, não sei o que é isso que move sempre o meu corpo, talvez um cérebro com doses extra de vontade, como há pizzas com dose extra de queijo. Mas a poção é mágica mas não milagrosa, é isso que me diz a dor na garganta e no ouvido direito, é o lado direito sempre a ressentir-se mais, se já pensava à esquerda, agora faço quase tudo à esquerda, afinal não há nada nos hemisférios que não se possa educar. Ensaio as minhas manobras de resistência, entre as quais ler, ler muito. Quando no Natal só me deram livros e um pijama, constatei que para os outros eu estava mesmo doente, coisa que me custava muito a acreditar. Afinal tinham razão, os livros são uma excelente companhia neste percurso. Também a escrita dos outros nos blogues. E até se consegue ler com dor de garganta. Se não há milagres, suspeito que há apenas magia e que alguma está na ponta dos dedos de quem escreve, nos olhos de quem lê. 

~CC~






terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cerejas



Uma caixa inteira de cerejas, tão grandes, tão vermelhas. Como podia ser em Janeiro estarem ali a olhar-me como se fosse Junho. Satisfiz a minha curiosidade já que na frutaria não havia rótulos de origem. Vinham do Chile, eram cerejas do Chile. Podia comê-las a ler poemas de Pablo Neruda. Tão lindas, tão sumarentas, do outro lado do mundo.

O Chile estava na agenda de hoje, já em casa, a notícia. Valparaíso estava a arder, mais de 100 casas consumidas pelo fogo. Como pode a poesia morrer assim? Mas Valparaíso não era afinal só um lugar arrumado no canto das minhas mitologias literárias, existia e sofria. Seriam de lá as cerejas? Não havendo cerejeiras nas cidades, seriam de lá perto? Talvez não, o Chile é uma imensa cordilheira que vai do calor ao frio.

Com cerejas ou sem elas, bem gostava de ir a Valparaíso. Que se salve, a bem deles e de todos nós. As cidades poema não podem morrer.

Imagem retirada de http://www.zedge.net/wallpaper/9189540/



~CC~